New York
A caminho de casa, somos abordados por um sujeito na rua, trajava belas roupas e carregava consigo uma destas maletas tipo 007. Abriu a mala — havia uma quantidade enorme de relógios lá dentro — e ofereceu-nos um Rolex por 20 dólares. Só aqui isto poderia ocorrer.
Nova York é uma cidade diferente onde é possível encontrar tudo que se possa ou não imaginar. Só aqui existe uma “gangue” especializada em roubos de caminhões de lixo — ninguém sabe com que finalidade. Além do Rolex e dos caminhões, não há quem respeite os sinais vermelhos. As buzinas são frequentes e multidões de pedestres atravessam as ruas ignorando os carros.
Dentro do Metropolitan Museum of Art está um templo egípcio verdadeiro — trouxeram pedra por pedra. A biblioteca pública é tão grande que é possível perder-se lá dentro, como já ocorreu comigo. Aliás, tudo aqui é gigantesco: o Empire State, o Museu, a Biblioteca… A cidade, de fato, é uma “Grande Maçã”.
As noites são uma continuação dos dias, ninguém parece ter necessidade de dormir. As multidões caminham durante a madrugada como se o sol ainda estivesse brilhando.

HOJE resolvemos visitar a Estátua da Liberdade. Esperar meia hora pelo barco que nos levará à Ilha da Liberdade, onde está a Estátua, parece ser algo muito monótono. Mas estamos em Nova York e aqui nada é monótono. São três senhores, sem emprego, de uns 25 a 30 anos, fazendo acrobacias para distrair o público.
Eles ficam pulando de um lado para o outro, atirando ovos para lá e para cá sem deixá-los cair (opa!, um acabou de cair). Atraíram muito bem nossa atenção, nem percebemos quando o barco atracou no cais atrás de nós. Transformaram uma longa espera em alguns instantes de prazer.
Agora, mais ou menos à meia-noite, saímos para jantar com alguns amigos em um restaurante mexicano. Fico sabendo que os três acrobatas, já estão na Estátua, divertindo o público, há uns cinco anos.
Durante a manhã, caminhando pela cidade, podemos ver o mundo inteiro, todos frequentam estas avenidas: russos, espanhóis, gregos, até brasileiros — como nós.
Dentre tantos e todos os tipos, há uma lojinha que vende café de qualquer país. Sim, dentre eles há um com a seguinte inscrição: BRAZIL. Uma rápida olhada nos preços e pude perceber que é um dos mais caros.
Próxima à loja de café está a de revistas em quadrinhos — o paraíso dos colecionadores. Qualquer edição de qualquer revista pode ser encontrada nesta loja.
Esta é, de fato, uma cidade diferente… Não há foto, música; não há filme, poema ou texto que possa relatar ou descrever Nova York. Só vindo para ver, para fazer parte desta metrópole. Só vindo para sentir uma parte do seu ser sendo arrancada e ficando para trás no momento da partida.
E assim é: qualquer necessidade, não importando qual seja, pode ser atendida em Nova York. Basta um pouco de paciência e é possível encontrar, aqui, tudo que for desejado. Infelizmente, por outro lado, é possível, também, encontrar o não desejado. Nem Nova York é perfeita.
No mesmo quarteirão, onde há alguns dias estava o vendedor de relógios, posso ver sentado aos pés da avenida mais famosa do mundo — junto aos gigantescos edifícios do capitalismo — um mendigo, de cabelos longos e barba por fazer. Este que a educação ensinou a todos a chamar de senhor está em dificuldades, precisa de ajuda urgentemente.
A multidão, desorientada, apressada, ignora aquele que está doente, desprotegido, à mercê do capitalismo. Uns comprando e vendendo ações com seus telefones celulares, outros atrasados para o trabalho e ainda os que, desorientadamente, tentam trazer clientes para o interior das lojas.
Todos andavam de um lado para o outro, ignorando a mensagem, o pedido de ajuda daquele senhor. Mas, de alguma forma, meus olhos são atraídos pelas palavras impressas naquele pedaço de caixa de papelão:
POR FAVOR, ME AJUDEM, TENHO AIDS.