A cidade que não desiste de mim.
A novela começou em Newark. O nome é parecido, está bem próxima, mas não é New York. E dessa vez seria apenas uma conexão. Ao menos foi o que imaginei enquanto olhava para a famosa skyline a partir da janela do terminal de embarque e refletia sobre como meus sentimentos haviam mudado na última vez em que nos encontramos.

Era dia 23 de dezembro de 2016 e, por conta dos feriados de final de ano, o aeroporto estava abarrotado de gente. A fila de imigração dava voltas e logo ficou claro que perderíamos a conexão. Ao menos estamos bem perto de Boston, pensei, quase num presságio do que estava para acontecer.
Assim que fomos liberados, vi um balcão da United, expliquei a situação e fomos prontamente acomodados no próximo voo, incluindo uma bela surpresa. Os dois últimos assentos disponíveis ficavam um na econômica e outro na primeira classe, que logo disse que deveria ser dado para a Andreia. — “Que maravilha de atraso”, comentamos alegres um com o outro.
Infelizmente, dali por diante, não haveria mais boas notícias. Nosso voo logo ganhou o status de atrasado e, a cada atualização do painel, a hora da partida era adiada e adiada e adiada, até que a palavra CANCELADO apareceu ao lado do UA1422.
Entre as tantas atualizações no horário de partida, o capitão veio algumas vezes ao microfone da sala de embarque para compartilhar informações a respeito do problema que estavam tentando resolver na aeronave. Foram várias e, a cada explicação dele, comecei intimamente a desejar que cancelassem aquele voo.
Detesto voar. Sempre acho que o avião vai cair comigo. Eu sei, é estatisticamente improvável, mas não é nulo. E não nulo leva minha mente criativa a concluir que vai acontecer algo justamente na minha vez. Principalmente quando há um problema que não se resolve mesmo após tantas tentativas. Sim, é um pouco de loucura, mas é assim que minha mente funciona no que se refere a aviões.
Enfim, como dizem, cuidado com o que deseja. Dito e feito, voo cancelado nas vésperas do Natal. O problema é que fomos literalmente abandonados à nossa sorte.
— “Está cancelado e não há nada que possamos fazer. Simplesmente não há voos de nenhuma companhia para acomodá-los,” nos explicaram.
Aprendi a lição. Da próxima vez que estiver intimamente desejando, desejarei algo mais completo, que inclua também uma solução alternativa para o problema.
Entre um anúncio e outro do capitão, eu falava com meu pai por telefone, pedindo que ele já fosse procurando trens ou qualquer outro meio de transporte para Boston. Em uma das conversas, ele disse que não havia encontrado disponibilidade em nenhum trem e que só havia mais duas passagens de ônibus, saindo de Nova York, que, felizmente, ele resolveu comprar.
Isso já estava parecendo um filme estadunidense e era só o começo. Chamei um Uber e seguimos para Manhattan. Eram tantos os carros praticamente parados que, honestamente, passou pela minha cabeça que perderíamos o ônibus também. Levamos uma hora e meia para percorrer 25 quilômetros. Isso sem mencionar a demora do Uber até o aeroporto para nos apanhar.

Chegamos! Ufa! Vai dar tempo. Conseguimos ainda comprar uma fatia de pizza e embarcamos.
QUANDO falo da casa do meu pai em Boston, na verdade, não é bem assim. Eu é que morava em Boston no ano passado. Meu pai mora a uns 60 quilômetros, em outra cidade, por onde, ironicamente, o ônibus passaria.
Chegamos a cogitar a ideia de pedir para o motorista nos deixar ali no meio do nada e ligar para meu pai avisando onde estávamos, mas, pensando bem, isso seria dar muita sorte ao azar. Melhor seguirmos o curso natural das coisas.
Quando estávamos próximos da casa dele, avisei e, num dado momento, meu pai alcançou o ônibus e foi nos seguindo até o terminal rodoviário. Coisa de filme, como já disse. De lá, voltamos os 60 quilômetros que havíamos acabado de percorrer na direção oposta, mas, finalmente, aliviados pelo fim daquela saga que começou pouco depois das nove da manhã e estava terminando perto da meia-noite.
Mas o grande vencedor do dia foi o quidim, doce predileto do meu pai, que havia sido comprado um dia antes da viagem em uma padaria de Brasília. Sobreviveu a tudo isso e foi prontamente devorado.
Em situações assim, minha mente se divide em dois trabalhos. Buscar a solução, resolvendo as coisas gradualmente, e focando no prêmio. No caso, obviamente, chegar ao destino final era o prêmio maior. Mas, digamos, a medalha seria abrir uma Sam Adams e relaxar. E foi o que fiz.

No dia seguinte, juntei todo o material, escrevi para a United e, no início de fevereiro, meu pai recebeu um cheque de US$ 29, referente ao reembolso do Uber. Mas, como todo problema que se preze, a situação obviamente não foi resolvida de uma só vez. Faltavam os US$ 104 referentes às passagens de ônibus. Tive que formalizar uma nova reclamação e esperar mais algumas semanas pelo reembolso.
New-York
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No primeiro de janeiro de 2017, depois das festas de final de ano em família, embarcamos com destino a Lisboa para continuar uma das melhores viagens que já fizemos. Não livre de problemas, é claro, mas essa é uma história para outro momento.