Caminhar por determinadas regiões de Lisboa sempre me remete a partes da Zona Sul do Rio de Janeiro. Da Calçada Portuguesa às construções, a semelhança é incrível. Evidentemente, Lisboa surgiu antes, mas na timeline da minha vida, primeiro conheci o Rio. Ou seja, no meu mundo, Lisboa lembra o Rio.

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Há também outras semelhanças. Dependendo da idade e local do apartamento, o aquecedor a gás faz um tic-tic-tic toda vez que abrimos a água quente na torneira. Isso é totalmente o Rio de Janeiro da minha infância.

A diferença parece estar apenas na evolução do equipamento. Naquela época, havia uma pequena chama que, se não me falha a memória, aumentava quando a torneira era aberta. Ou isso, ou aumentávamos a chama manualmente. Enfim, não me lembro bem.

Quando moramos em Boston, o fogão funcionava da mesma forma. Havia essa mini-chama que ficava sempre queimando. Descobri isso no dia em que derramei café. Disse para o dono da casa que o fogão não estava mais funcionando e foi quando fiquei sabendo da incoerência do consumo constante de gás, mesmo quando não estávamos cozinhando.

No Rio da minha infância, mesmo sem o café derramado, a chama do aquecedor apagava com alguma frequência. Provavelmente o vento. Por isso, havia sempre uma caixa de fósforos ao lado para reacendê-la. Mas aquilo era coisa de adulto.

Já na casa da minha avó — em Minas — a ordem era sempre apagar a chama depois do banho. Em retrospectiva, era provavelmente uma economia mínima, mas que, do ponto de vista ecológico do mundo atual, parece fazer muito sentido.

Pelo que entendo, neste equipamento do Airbnb em Lisboa, a chama acende automaticamente como nos fogões a gás mais modernos. Pensando bem, até meu fogão portátil e super básico de acampamento funciona dessa forma. Tudo automático. Enfim, de volta às semelhanças.

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Há também a distância e, de certa forma, a proximidade. Moro no Porto, mas venho a Lisboa com alguma frequência. No Brasil, eu morava em Brasília e, por conta de familiares que ainda viviam no Rio, também viajava para lá muitas vezes.

Por fim, há certa nostalgia pairando no ar ultimamente. Desde que comecei a reler Fernando Sabino, tenho enxergado semelhanças para onde quer que eu olhe. Ele é de Minas, como parte da minha família, e morou no Rio, como eu. E, como mencionei em episódio recente do VCP 2.0, criei uma tradição de visitar a rua onde ele morava toda vez que ia ao Rio.

Provavelmente, meu inconsciente não está entendendo por que ainda não fui à rua Canning, aqui em Lisboa. Até procurei, mas infelizmente — ou felizmente para minha sanidade — não existe uma rua com este nome por aqui.