Como um taco de golf mecanizado pode ter alguma relação com organização pessoal ou os processos da sua empresa?

Quando me perguntam sobre onde busco inspiração para meus sistemas e aquilo que ensino nas mentorias, tenho uma imensa dificuldade de explicar. A verdade é que minhas ideias vem de locais muito inusitados. Por exemplo, esse vídeo de um engenheiro tentando criar um taco de golf que sempre acerta o buraco me fez parar tudo para escrever esse texto.

Sempre que ele move o taco para trás, um motor ajusta a base e do taco antes de bater na bola, fazendo com que a bola sempre caia no buraco.

Sempre? Continue lendo, porque foi exatamente isso que me inspirou.

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Só mesmo assistindo o vídeo para entender a quantidade de sensores, programação e cálculos que foram necessários para fazer algo assim funcionar. Sem mencionar os inúmeros momentos de frustração. Uma das frases que ele usa é:

This turned into months of programming. If I had known what this was going to take, I really don’t think I would have done it because there’s just no way that this was worth it.

Em suma, não vale a pena gastar meses de programação para algo assim. Mas depois ele diz:

But in the end, we do have something really cool, which if I play my cards right, just might impress my wife.

Numa tradução livre seria algo como: Mas no final, teremos algo muito bacana. E se eu fizer tudo certinho, pode até ser que eu consiga impressionar minha esposa.

Essa parte tem total relação com minha opinião a respeito de lazer. Nestes casos e em alguns outros, eficiência e processos não fazem sentido. O objetivo é se divertir. Afinal, a vida não é uma lista de tarefas. Mas não foi isso que me inspirou a escrever este texto.

A primeira coisa que ele precisou fazer foi mapear o percurso inteiro e só isso foi um trabalho sem precedentes. Há variáveis demais. Por exemplo, a sutil curvatura da madeira usada no piso e nas laterais, fazem uma diferença imensa no caminho que a bola percorrerá. Portanto, ele precisou também criar uma engenhoca que mapeasse cada milímetro do percurso e depois foi preciso “mostrar” tudo isso para o computador.

Agora bastava mapear cada nova dificuldade adicionada ao percurso e tudo estaria resolvido, certo? Não exatamente. Os milímetros que ele mapeou estavam sujeitos a outras variações. Mudanças na temperatura, por exemplo, fazem materiais aumentarem e diminuirem seus tamanhos. A maior parte do tempo é algo imperceptível a olho nu, mas numa situação como esta, significa que o computador ficará confuso com o tamanho do percurso.

O próximo passo foi colocar sensores para medir as dilatações e “ensinar” o computador e ler essas diferenças antes de calcular o ajuste na base do taco.

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São tantas as variáveis que ele detectou que se eu não resumir aqui no texto, você vai desistir da leitura. Mas me permita uma última. Quando a bola bate na lateral, ela “levanta voo” , mas continua a rodar na direção que vinha seguindo antes do impacto. Quando ela “pousa”, a rotação causa um desvio no percurso. Que, mais uma vez, nossos olhos não conseguem perceber.

No final desse processo extremamente árduo, ele conseguiu criar um sistema inacreditável, acertando o buraco a maior parte das vezes. Mas uma das frase que ele repetiu algumas vezes chamou minha atenção:

É simplesmente imprevisível.

Algumas vezes essa frase veio acompanhada do problema de inconsistência na força que ele usava para bater na bola. Em outras palavras, é uma variação da frase que uso frequentemente com meus alunos:

Não há como prever o futuro. Existem variáveis demais.

Ou seja, apesar do incrível sistema que ele criou, algumas variáveis que não foram previstas ainda faziam a engenhoca dele errar. E estamos falando de uma quantidade absurda de energia e tempo que ele usou para criar essa tecnologia. Perfeitamente compreensível no caso dele porque era uma diversão. Mas não faz o menor sentido tentar criar algo assim nos processos da sua empresa ou no seu sistema de organização pessoal.

Faça o melhor que você poder, considerando as variáveis que você conhece e ajuste o sistema quando encontrar algo que não está funcionando. Quando começo sessões de mentoria para empresas, uma das primeiras coisas que digo é que quadros Kanban nunca serão perfeitos e nunca estarão prontos. O mesmo vale para nossos sistema de organização pessoal. Modifico meu Obsidian com frequência, ajustando coisas aqui e ali sempre que necessário.

Abraçar a inevitabilidade da mudança é fundamental. Portanto, seja no meu caso ou no caso dos meus alunos, procuro construir um sistema que dê espaço para manobra. É por isso que uso propriedades com nomes tão genéricos. É isso que me permitirá utilzá-las em diferentes situações. E no caso dos quadros Kanban, é simples adicionar e remover listas ou mudar processos, lembrando da Transparência, é claro. Mas isso é assunto para outro dia.

Por fim, uma ironia. Esse texto, sobre não tentar prever o futuro foi escrito para minha newsletter chamada “Maquina do Tempo”. A propósito, é uma newsletter gratuita, basta se cadastrar gratuitamente no meu portal para receber textos como este. Enfim, os textos da Máquina do Tempo são a respeito de cronologia e não sobre prever ou mudar o futuro, mas não deixa de ser irônico.

PS. Caso esteja curioso, os grifos no vídeo do YouTube foram feitos com o novo recurso do Reader do WebClipper do Obsidian.