A ideia era aproveitar uma conexão para curtir alguns dias na praia e depois atravessar o Canal do Panamá. Em razão da proximidade, preços e algumas recomendações online, escolhemos a praia de Farallón.

Costumo dividir o mundo turístico em dois grandes grupos. Lugares como EUA, Europa e similares, nos quais tudo é extremamente organizado, sendo perfeitamente possível planejar tudo com antecedência. E na outra extremidade, locais como a América Latina (Brasil inclusive!), Oriente Médio, Ásia etc., onde o que existe é uma espécie de caos adaptado à realidade local.

Minhas pesquisas a respeito de como chegar a Farallón, a partir da cidade do Panamá, imediatamente enquadraram o país no segundo grupo. Os fóruns online diziam que bastava ir até a rodoviária no dia e hora da viagem e comprar a passagem.

— Sério? E qual é o número do ônibus? — Número? Basta chegar e pedir uma passagem para Río Hato e de lá pegar um outro ônibus para Farallón…

Mesmo já tendo passado por inúmeras situações como esta, resolvi visitar a rodoviária no dia anterior e tentar comprar a passagem com antecedência. Total perda de tempo! Aconteceu exatamente como disseram online.

Para não te consumir com tantos detalhes, vamos aos fatos. Uma van estilo lotação era o ônibus. Ao menos havia ar-condicionado! Fomos pingando de cidade em cidade e, enquanto acompanhava tudo via City Maps 2Go, percebi que o motorista fez uma volta para deixar passageiros em um resort na praia de Farallón. Perfeito! Vamos matar dois coelhos com uma cajadada só. Doce ilusão… Pedimos para descer e qual não foi nossa surpresa.

— Vocês precisam pagar mais um Balboa por pessoa. — Por quê? — Compraram a passagem para Río Hato e não para Farallón…

Farallón é um local cheio de resorts e naquele pequeno percurso já ficou evidente que a região é sinônimo de turistas com muito dinheiro. Provavelmente foi assim que fomos classificados pelo motorista, mas longe de ser o nosso caso. Nossa hospedagem seria via Airbnb e estávamos levando mantimentos comprados no supermercado.

Não estava nos meus planos me envolver em uma confusão com um motorista de van e, como já havia pesquisado online o preço de 1 Balboa para ir de Río Hato a Farallón, paguei. Mas que lógica maluca é essa?, pensei. Eles já estavam ali. Era só nos deixar descer. É o caos organizado. Organizado para eles, é claro!

Na praia, mais um choque! A areia estava preta. Instantaneamente pensei: algo de sério aconteceu no Canal e óleo de algum navio vazou até aqui. Nada disso! Aparentemente, me escapou um pequeno detalhe nas pesquisas. A areia do Pacífico em diversos países dessa região é negra em virtude da sua origem vulcânica.

2015-07-10 09.35 Areia Negra.jpg

Passado o susto, algo impensável para nós, brasileiros, tornou-se exótico e até mesmo belo. Ao longo do dia, o reflexo do sol sobre a areia preta evidencia inúmeros pequenos pontos mais claros. A diversidade deste planeta é mesmo incrível! Em alguns pontos, é possível perceber que a camada negra é trazida pela água da praia. Elas se depositam por cima da areia da cor que conhecemos no Brasil. Ao longo do dia, vão se misturando e o conjunto fica acinzentado como na foto abaixo. E claro, a vida se adapta.

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Mas definitivamente não sou mais o mesmo! Outro detalhe que me escapou nas pesquisas foi o fato de que o general Manuel Antonio Noriega tinha uma casa de praia em Farallón. Caminhando pela areia, notamos as ruínas de uma enorme mansão abandonada. Entramos para investigar aquilo, mas só depois, conversando com os locais, descobrimos quem era o antigo dono da mansão destruída pelo tempo. Já estive em lugares inusitados nas minhas andanças pelo mundo, mas foi definitivamente a primeira vez que entrei na casa de um ditador.

2015-07-08 A casa do ditador.jpg

No retorno para a cidade do Panamá, descobri dois outros detalhes interessantes. Não precisaríamos ir até Río Hato fazer uma “conexão”. Por 30 centavos de Balboa nos deixariam na rodovia principal. A instrução que recebi dos donos da casa onde ficamos hospedados foi: — Entregue os 30 centavos, diga que vai ficar na rodovia e entre!

Deu certo! E depois de esperar por alguns minutos, acenei para um ônibus que passava, perguntei se estavam indo para a capital, negociei o valor e voltamos confortavelmente por US$4/pessoa.