VCP.53 - Raspberry Pi: o projeto que redefiniu minha perspectiva digital.
No episódio passado eu falei sobre como certas conveniências do mundo moderno acabam nos escravizando, mas eu ando pensando sobre isso e na verdade eu já vinha pensando sobre isso há um tempo antes e essa história é um pouco mais velha, talvez muito mais velha do que eu imaginava ou do que eu tinha me dado conta.
Nos anos 80 e 90, quando eu comecei a usar computadores, tudo que aparecia na tela do computador quando você ligava o computador era um quadradinho ou um pontinho piscando, quem tem a minha idade está lembrando daquela coisa assustadora que não fazia nada, simplesmente ligava uma tela preta com um ponto piscando ou verde ou branco dependendo da tela que você usava.
Para aprender como interagir com o computador, quais eram os comandos que você tinha que digitar e tinham que ser comandos específicos, não é essa coisa do Google que você pode escrever uma coisa errada ou de A que você pode escrever uma coisa errada e eles entendem.
Esses comandos nós aprendemos de alguns lugares, o manual que vinha com o computador, mas se você comprasse o computador de segunda mão, como foi o meu caso, raramente vinha o manual entre amigos, porque todos os amigos tinham computadores, mas nesse caso existia um problema, os computadores de cada um funcionavam diferentes, tinham sistemas diferentes e era mais ou menos parecido, você conseguia ir tentando a tentativa e erro, tinham algumas revistas que publicavam partes de código, você ia aprendendo, enfim, era muito trabalhoso você aprender a interagir com o computador, isso eu estou falando da época do Apple II, que foi meu primeiro computador e depois de quando eu migrei para um PC, o ambiente do DOS, que era tudo escrito em comandos.
E é aqui que entra a história da conveniência, eu não tenho as datas certas na minha cabeça, mas de qualquer forma essas duas coisas chegaram no meu dia a dia ao mesmo tempo, eu estou falando do Linux e eu estou falando do ambiente gráfico do Windows, na época o primeiro Windows que eu usei foi o 3.0 e logo depois migrei para o 3.1.
Mais ou menos na mesma época em que essas coisas chegaram para mim, eu optei pelo Windows e olhando para trás percebo algumas razões pelas quais isso, por que isso aconteceu, mas antes quero só deixar uma ressalva aqui para os fãs de Linux, eu não vou complicar as coisas nessa conversa, não vou separar a GNU, não vou separar a Kernel, nada disso, eu vou chamar tudo de Linux e já é complicado demais explicar algo que as pessoas não entendem, então vou usar um termo mais genérico, quando eu falo Linux eu estou falando de tudo.
Enfim, o que acontece?
A conveniência do Windows era igual a conveniência que eu mencionei no episódio passado, porque na biblioteca da faculdade já era um computador que tinha um ambiente gráfico, não sei qual era o Windows que tinha lá, não me lembro, depois eu comecei a fazer estágio, tinha computadores meio Windows, meio DOS, ainda era um pouco misto, e eu tinha, quando eu comprei o PC, veio com o Windows, eu já tinha o Windows, então tudo criou essa conveniência.
Ao mesmo tempo, e isso foi falha minha, mas eu não tinha onde pesquisar isso, eu não sabia que o Linux era tão mais poderoso do que o DOS, então quando você pensa em DOS, quando você pensa em algo ainda mais antigo como o Apple II, o Basic, tudo era mono, monotarefa, você só podia fazer uma coisa, além de toda a complicação dos códigos, você só podia fazer uma coisa em tela, e quando o Windows surgiu e eu comecei a usar e eu vi aquela coisa acontecendo em várias janelas ao mesmo tempo, hoje a gente nem pensa nisso, mas isso foi revolucionário, e não foi nem criado pelo Windows, mas é de novo a conveniência do Windows, era o que tinha e era o que todos usavam, conveniente, não importa, eu não quero entrar nessa história de quem criou isso, é uma história muito interessante, mas não é o foco hoje, o importante é que o Windows popularizou isso, a Microsoft popularizou isso, não há dúvida quanto a isso, na minha visão.
Então, quando eu olhei para aquilo, eu pensei, opa, isso aqui não só é bonito, é funcional, eu posso alternar entre programas, tem várias vantagens, e aquele outro é feio, e é monocoisas, só posso fazer uma coisa de cada vez, e aí eu entrei nisso, de repente fui migrando e de repente estou no Mac hoje, e comecei a investir em Linux.
Ao longo dos anos eu fui tentando também testar o Linux um pouco depois, porque quando eu comecei a usar o Windows e tal, aí veio a internet, comecei a descobrir outras coisas, mas ainda assim não era simples como é hoje, você tinha que saber determinadas coisas, você tinha que fazer determinadas coisas para aquilo funcionar, você tinha que ter um segundo computador, que não era uma coisa simples de se ter, porque a essa altura eu já usava o computador para várias outras coisas, eu precisava ter um sistema que todos usavam, então nunca houve uma oportunidade em que isso foi, não era simples, mas também nunca houve uma oportunidade em que isso foi possível, sequer possível de executar, e foi passando, e o que eu penso hoje, que eu estou testando o Linux, e daí o tema do episódio, é que eu teria sido talvez uma pessoa diferente, muito diferente, talvez minha profissão tivesse sido diferente, se eu tivesse tido a oportunidade de entender ou conviver com pessoas que usavam o Linux e instalar esse Linux lá atrás no meu computador.
Eu digo isso por quê?
Porque eu venho de um ambiente de código, eu venho de um ambiente em que eu decorei um monte de códigos para usar o computador, eu usava com muita agilidade, e às vezes eu fico pensando, quando eu estou agora usando o Linux, os códigos são completamente diferentes do DOS, mas vez por outra, sem querer, eu vou lá e digito uma coisa que eu digitava no DOS, agora é que eu estou começando a reprogramar a minha mente para digitar os códigos certos, porque eu fiz tanto aquilo que se tornou extremamente gravado, é o que eles chamam de memória muscular, ficou gravado, eu sabia tudo aquilo, todos aqueles códigos, e à medida que você ia precisando de um novo código, você ia aprendendo, e aí você ia aplicando e usando.
Tinham uns também que eram muito raramente, você usava raramente, eu anotava aqueles códigos.
Mas o Linux que eu estou usando é um Linux, o Linux evoluiu também, já tem tela gráfica, o Windows, uma pessoa que quiser usar o Linux hoje vai usar como se estivesse usando um Windows, um Mac, o formato, o jeitão do sistema é exatamente o mesmo em poucas semanas, você está habituado àquilo.
Porém, quando eu comecei a usar, eu pensei, já que eu vou me meter nisso, vamos fazer direito, vamos aprender direito, vamos aprender o código, porque o código está lá, por trás daquela interface gráfica bonita.
E aí voltando, só retomando aqui a como isso está me mudando como pessoa e como poderia ter me mudado como pessoa naquela época, isso que eu estou aprendendo agora, todos esses códigos que eu conectei, que está internalizando em mim, eu poderia ter aprendido muito mais rápido naquela época, porque eu vinha desse ambiente de código.
Então eu fico pensando, imagina só quem eu seria, talvez hoje eu fosse um programador, talvez eu nunca tivesse usado o Windows ou Mac fora de um ambiente de trabalho, talvez o meu computador em casa tivesse sido sempre um computador rodando Linux se eu tivesse nascido ou começado a usar computadores um degrauzinho na frente quando as coisas eram mais fáceis de usar e de instalar.
Quando você para para pensar sobre essas coisas que podem mudar a sua vida, e eu digo isso porque eu acho que eu teria usado e ficado usando o Linux porque eu estou usando ele assim, quando eu decidi aprender, eu falei, eu vou aprender em código, quero saber como funcionam os principais códigos, é o que se chama de terminal, e quanto mais eu vou tentando entender, eu vou tentando aprender, mais eu vejo como é poderoso, e eu vejo também que a interface gráfica é só um embelezamento.
Ontem eu estava usando três janelas de texto dentro da tela do Linux, estava dividido em três janelas onde só se digita texto e as três janelas estavam vivas, ativas, em multitarefa.
Uma janela com rádio, com texto do rádio, o Lora, aquele que eu mencionei num episódio aqui, eu liguei um rádio no Raspberry Pi e tem uma antena lá, eu consigo interagir com o rádio a partir do Linux, uma loucura.
Outra com um terminalzinho mostrando o uso do sistema, o que está usando mais o sistema, e o outro onde eu estou escrevendo coisas ou fazendo notas num bloco de notas do Linux.
É muito poderoso, ele só não é bonito, e aí eu mostrei pra minha esposa e ela disse, diga pros seus amigos que isso é muito feio, eu não quero isso não pra mim.
Mas eu acho incrível esse poder e ando pensando sobre várias coisas, obviamente não dá pra navegar ali na internet, até dá só em texto, mas não vamos entrar nesse mérito, mas eu ando pensando sobre várias coisas, por que eu preciso de uma interface gráfica tão sofisticada se eu consigo fazer tudo ali em texto?
Cada vez que eu vou usando mais e vou trabalhando mais e vou ficando mais próximo da máquina dos comandos, quer ver um outro exemplo?
O Mac usa, os comandos do Mac, do terminal do Mac, são muito parecidos com os comandos quase todos iguais do Linux, isso é uma outra história, não vem ao caso aqui,