VCP.42 - Estamos completamente desconectados do mais importante.
Houve esse momento na minha vida em que, jogando bola com os amigos de infância, alguém perguntava que horas eram, sem usar um relógio, acho que quase ninguém usava relógio naquela época, eu olhava pro céu, via mais ou menos a posição do sol e eu conseguia dizer algo como, ainda são umas 10 horas, e 10 horas era uma margem de erro enorme aí, a gente tá falando de final das 9 até começo das 11, então de hora em hora, eu conseguia acertar, às vezes eu conseguia acertar na meia hora também.
Foi um superpoder que eu tive até que eu comecei a usar relógio e comecei a viver a vida do minuto a minuto sendo guiado pelo relógio.
E eu desenvolvi esse superpoder naturalmente, eu não procurei desenvolver esse superpoder, mas tenho certeza que se eu investir tempo, eu consigo desenvolver ele de novo e tenho certeza que você consegue também.
Um dia meu pai chegou com esse relógio solar em casa e eram as minhas férias, aquelas férias de final de ano mais longas no Brasil, em Portugal é o contrário, mas se eu não me engano chega a ser 3 meses, coisa assim.
E meu pai tinha uma piscina, tinha uma casa e claro, nas férias eu ficava o tempo todo na piscina, só que eu fiquei tão obcecado com aquele relógio que eu ficava olhando, porque tem aquela haste no relógio solar que é onde o sol bate e projeta sombra pra dizer que horas são.
Eu acho que ele tinha algo de 15 em 15 minutos, se eu não me lembro, ou de meia em meia hora, não me lembro, claro que não era preciso, mas a sombra ficava caminhando e eu ficava intrigado com aquela sombra caminhando e eu ficava olhando pro sol e olhando pro relógio pra ver onde ela tava projetando.
Eu não tinha planejado decorar onde o sol estava, aconteceu, foi instintivo e eu percebi isso sem querer quando alguém perguntou as horas pela primeira vez lá no campo de futebol, eu olhei pro céu e acertei as horas, eu nem tinha notado que eu tinha desenvolvido esse superpoder.
É mais ou menos o superpoder que o meu cão, o Cafeína, tem.
O meu escritório fica numa região de praia, acho que é um quilômetro e meio da praia, mas eu diria que num raio aqui de 3 quilômetros ou até mais, por um caminho que ele nunca foi, ele ama praia, se eu sair pra andar com ele, ele quiser ir à praia, ele vai me conduzir pra praia, ele vai me levar pra praia, independente se ele já passou por aquela rua ou não, ele vai tentar me puxar em direção à praia.
Não sei como ele faz, eu não sei se é o cheiro da água, se é o sol, o que é, mas ele sabe o caminho da praia e obviamente não é algo que eu ensinei, porque alguns caminhos ele faz com frequência, mas os outros caminhos, quando são caminhos inéditos que ele nunca fez, ele consegue chegar lá também.
Um outro superpoder que ele tem muito parecido com esse, e esse eu fiz um pequeno treinamento, nas trilhas eu tento dizer pra ele sempre carro, quando nós estamos voltando pro carro.
Se é uma trilha que eu vou e volto pelo mesmo caminho, na volta eu fico repetindo a palavra carro, vamos pro carro, carro, pra ensinar ele que nós estamos voltando pro carro.
Eu fiz tanto isso que hoje quando eu digo carro, lá pelo final da trilha, ele começa a puxar em direção ao carro, ele vai cheirando, nesse caso eu percebo claramente que ele tá fazendo pelo olfato, ele vai cheirando os lugares e vai em direção ao carro.
Mas existe algo, um outro tipo de percepção, porque quando a trilha é circular, eu não faço isso, porque obviamente ele vai querer voltar o caminho todo pra chegar até o carro.
Mas quando nós vamos chegando ao final do círculo pra completar, pra conectar com o outro lado, mesmo não passando por nenhum local onde nós já tínhamos passado antes, ele começa a ficar agitado e se ele estiver na coleira, ele começa a puxar em direção ao carro.
Ele sabe alguma coisa, algum cheiro, alguma coisa chega a ele e ele sabe que ele tá próximo daquele lugar.
Essa é uma conexão com a natureza que nós também temos e nós fomos perdendo.
É um exemplo claro dessa perda.
Nós estávamos voltando de Lisboa esses dias e eu, obviamente, liguei o meu GPS, o meu mapa pra voltar pra pegar o caminho correto saindo da cidade.
Eu vim pela autopista, a rodovia que vai mais próxima ao litoral.
Se eu tô do sul, que é Lisboa, indo pro norte, que é o Porto, eu tenho que imaginar que o oceano tá à minha esquerda, principalmente porque eu tô próximo, eu tô no litoral.
E na saída da cidade, o oceano tava na minha direita.
E eu olhei praquilo e falei, tem alguma coisa errada aqui.
O oceano tinha que estar do meu lado esquerdo.
O mapa dizia, vá em frente, me obedeça.
E eu acreditei na tecnologia.
É óbvio que eu devia estar ali em alguma curva, alguma baíazinha, alguma coisa que me fez inverter a posição do oceano e a rodovia também, a autostrada também, não necessariamente vai ser uma linha reta de uma cidade pra outra.
Mas é interessante perceber como é que o meu racional, a minha conexão com a natureza é deixado de lado em favor de uma máquina que tá me conduzindo.
Eu prometo que tudo isso vai fazer sentido daqui a pouco, mas eu preciso te contar mais algumas histórias a respeito de percepção.
Se nós olharmos o mundo do ponto de vista do Pacífico, se você abrir um mapa mundo e olhar pelo Pacífico aquele espaço enorme que existe no oceano, próximo do continente americano, você vai ver basicamente, dependendo do nível de zoom que você usar, você vai ver basicamente o Havaí e Galápagos.
Não dá pra ver mais nada se você quiser ver o oceano inteiro na sua tela.
Mas à medida que você vai fazendo o zoom, vão aparecendo, eu diria, centenas de ilhas, pequenas ilhotas da Polinésia, inclusive a Ilha de Páscoa, que é uma dessas ilhas, que foi uma ilha que eu visitei e tive que viajar cinco horas e meia de avião a partir de Santiago do Chile.
É muito tempo pra voar e a Ilha de Páscoa, do ponto de vista partindo do continente americano, não tá nem na metade do caminho do Pacífico, tá muito longe do meio do Pacífico.
E além dessa distância que foi algo impactante, a ilha é muito pequena, o que as pessoas de lá diziam é que existem muitos traços nos moais e na cultura da Ilha de Páscoa que remetem à Polinésia e às outras ilhas dessa região.
Os moais, alguns têm um chapéu vermelho e diziam, disseram pra gente na época que esse chapéu vermelho é algo que tá presente em várias culturas da Polinésia.
E quando você olha pro mapa, principalmente depois de voar cinco horas e meia, voar cinco horas e meia, eu fiquei por anos pensando sobre isso, sobre essas distâncias e como é que essas culturas passaram de uma ilha pra outra, como é que essas pessoas foram de uma ilha pra outra.
Até que, recentemente, eu ouvi o episódio 661 do 99% Invisible, podcast recorrente aqui no meu podcast.
Adoro o 99% Invisible, sempre tem histórias muito interessantes.
E era um episódio a respeito de coordenadas, como é que os ingleses chegaram a essa conclusão de como saber onde nós estamos no mundo sem o GPS.
Muito interessante.
Mas esse não é o ponto da conversa.
Quer dizer, de certa forma é, porque pra fazer isso eles usavam tecnologia, criaram tecnologia.
E no final do episódio eles falam de um grupo de pessoas que está fazendo o caminho que as pessoas da Polinésia faziam, aqueles idos e idos e idos do passado, faziam com as canoas.
Esse grupo de pessoas está fazendo o caminho sem GPS, sem instrumentos.
E a pessoa que eles entrevistaram estava explicando como é que eles fazem isso.
E ela dizia que uma ilha é muito maior do que a ilha em si, porque existem várias coisas que projetam aquela ilha, que aumentam o tamanho daquela ilha.
E ela começa a falar de várias coisas, nuvens, pássaros, outros animais, correntes, o próprio vento e uma série de sinalizadores que indicam que existe ali uma ilha.
Por exemplo, se determinados pássaros gostam, só ficam próximos a ilhas e você começa a ver aqueles pássaros é porque você está próximo àquela ilha.
Então várias coisas mostram que existe ali uma ilha, é como se a ilha, ela fala disso, é como se a ilha fosse muito maior do que ela é de fato.
Ela usa The island becomes, deixa eu até anotar aqui, The island becomes much bigger, ou seja, a ilha se torna muito maior quando você começa a enxergar o mundo dessa forma.
Então é mais ou menos essa percepção da natureza que eu dizia e no site deles, eles têm um site que está rastreando o caminho deles pelo mundo, depois se você der uma olhada na descrição desse episódio, eu coloquei lá o link.
É incrível imaginar que eles estão fazendo esse caminho todo sem instrumentos.
Ela fala, navegação sem instrumentos, é óbvio que tem um GPS a bordo porque estão rastreando eles pelo mundo, mas não é usado por eles para a navegação, muito incrível.
Então nós temos essa capacidade, assim como os animais, assim como o