VCP.41 - Palavras que mudaram a minha vida
Esse é um daqueles episódios que eu fiquei debatendo se eu ia gravar ou não, depois eu pensei, ah, eu vou gravar e independente de como ele ficar, eu publico ou não, e aí depois eu cheguei à conclusão de que não, vou gravar e publicar, afinal de contas eu ativei esse podcast novamente na versão 2.0 pra falar sobre o que eu quisesse.
E a história de hoje é sobre como IA tocou o meu coração, mas eu garanto que não é o que você está pensando.
Vamos lá.
Alguns dias, deve ter dois ou três dias, eu estava no Mastodon e vi a Elan, que é uma australiana que eu sigo, ela escreve alguns artigos interessantes, acompanho ela no Mastodon, e ela falando, eu li sobre ela, ela falando de como IA estava forçando ela a rever a forma como ela escreve.
E ela comentou algumas coisas e depois falou também sobre o travessão.
O travessão IA é uma coisa que me deixou bem revoltado, talvez há algumas semanas, estou sem noção de tempo aqui, mas tem algum tempinho que eu publiquei um texto em inglês falando sobre isso, porque as pessoas estavam chamando o travessão de chat GPT dash, ou seja, travessão do chat GPT.
E eu escrevi um texto revoltado sobre isso, dizendo que da próxima vez que alguém me acusasse de estar usando IA para escrever, eu ia perguntar se aquela pessoa lia, se ela já tinha lido algum livro na vida, porque tudo quanto é livro, bom, pelo menos os livros que eu leio têm travessões para todo lado.
É uma escrita super comum em literatura, extremamente comum em português.
Então, assim, dizer que a pessoa está usando o chat GPT para escrever porque ela está usando o travessão é, no mínimo, inculto.
IA aprende com o ser humano, poxa.
Então, assim, se o ser humano escreve assim há séculos, diga-se de passagem, é natural que IA vá usar.
E, de fato, IA use demais o travessão e eu acho que em alguns lugares não faz o menor sentido, mas eu tendo a usar bastante o travessão e eu penso que faz sentido a forma como eu uso.
Enfim, peguei uma super tangente aqui, mas a história foi a seguinte.
Eu mandei esse texto para ela, disse que eu também estava irritado com essa coisa de IA, mandei o texto para ela e ela leu o texto.
No texto eu cito o autor brasileiro que me fez descobrir, entender e me apaixonar por travessões, que é o meu autor predileto, o Fernando Sabino.
E aí ela respondeu dizendo, é a segunda vez nessa semana que eu ouço falar de Fernando Sabino.
Ela é australiana, ok?
E aí ela falou que a frase que ela ouviu dele foi, que ele tinha dito, foi aquela frase, tudo dá certo no final, se não deu certo ainda é porque não chegou o final.
Eu adoro essa frase, é uma frase…
pode ser vista como conformista, mas eu vejo ela como otimista.
É dizer que as coisas têm um…
eu vejo essa frase como as coisas têm o ritmo delas, as coisas vão acontecer, mas elas têm um ritmo, não adianta forçar o ritmo.
É claro que pode ser uma frase conformista.
Ela não colocou o ainda, né?
Se ainda não deu certo, se não deu certo ainda é porque não chegou o final.
Na minha memória diz que esse ainda existe, e eu disse para ela, falta o ainda.
O ainda é o toque de otimismo, talvez minha mente tenha colocado esse ainda, mas a lembrança que eu tenho desde sempre é a frase com o ainda.
Porque se não deu certo, é porque não chegou no final.
É interessante, mas se não deu certo ainda, é porque ainda não chegou o final.
Dá um toque muito mais forte a frase, não é mesmo?
Ela fica muito mais…
alguma coisa ainda vai acontecer, alguma solução ainda virá para isso.
E aí depois, quem foi que perguntou?
Randau.
Foi o Randau que perguntou sobre a frase, porque ele queria saber como é que era a frase em português, porque eu estava escrevendo, fazendo uma tradução livre para ela em inglês, e ele queria saber como é que era a frase em português, aí eu coloquei para ele.
Mas aí eu disse, mas essa frase tem um backup, esse pensamento tem um backup.
O Fernando Sabino era o mago das palavras, mas era um mago simples, ele não tinha essa sofisticação da língua portuguesa, ele conseguia transformar textos em coisas incríveis com linguagem simples, e eu acho que isso é de uma magia profunda.
Mas enfim, a outra frase que eu disse para o Randau que era o backup é o que não tem solução, solucionado está.
Essas duas frases apareciam em vários contos, em várias histórias do Fernando Sabino, eu li toda a coleção do Fernando Sabino, é o meu autor predileto, eu aprendi muita, muita, muita coisa com o Fernando Sabino.
Eu considero ele como aquele tio distante que ensina o avô distante, que ensina, que traz ensinamentos.
Em cada livro eu aprendia várias coisas.
Então o que não tem solução, solucionado está, é meio que um backup da outra frase, porque afinal de contas, se no final tudo dá certo, não chegou o final ainda, mas se de repente aquele certo não é o que você esperava, o que não tem solução, solucionado está.
Então ele era muito interessante com as palavras, e a forma como o Ia me tocou foi essa conversa que aconteceu em torno do Fernando Sabino, o fato dela saber e ter ouvido falar de Fernando, não é que ela sabia, ela ter ouvido falar de Fernando Sabino, e eu fiquei muito feliz com isso, porque o Fernando Sabino é um autor, não da minha geração, ele é da geração dos meus pais, eu me apaixonei e muita gente da minha geração se apaixonou pelo Fernando Sabino, leu o Fernando Sabino, mas eu duvido que tanta gente da próxima geração, da geração do meu filho em diante, conheça, sequer conheça o Fernando Sabino.
O meu filho conhece o Fernando Sabino, eu não sei se já leu alguma coisa do Fernando Sabino, porque o nome do meu filho é Fernando, por conta do Fernando Sabino.
Daí você tem uma noção de como eu gostava desse autor, e é um gostar que não é só gostar do texto, é isso que eu falei, ele parecia um parente distante para mim.
E aí eu mandei para a Helena, o nome dela é E-L-L-A-N-E, seria alguma pronúncia assim, e eu mandei para ela fotos de uma carta que o Fernando Sabino me mandou, nós chegamos a nos corresponder, mandei uma carta para ele, ele me respondeu, mandei de volta, ele respondeu, me mandou alguns livros autografados, mas tinha uma coisa que era, naquela época, eu não sei se todos faziam isso, como é que eu descobri o endereço dele, é isso que eu quero dizer, eu não sei se todo autor fazia isso, se ele fez isso, se foi um acidente, mas vários livros do Fernando Sabino tinham um endereço, e esse endereço eu suspeitava que era o endereço da Record, que era a editora, ficava na contracapa do livro, naquelas primeiras páginas do livro, tinha um endereço lá no Rio de Janeiro, em Ipanema.
E eu escrevi para lá, falei, quem sabe, se for o endereço da Record, eles vão saber, botei para Fernando Sabino, vão encaminhar para ele, quem sabe um dia ele lê, quem sabe alguma coisa, sei lá.
Não imaginei que ele jamais fosse me responder, mas outra coisa que eu também não imaginava, é que aquele endereço era o endereço da casa dele, do apartamento dele, lá em Ipanema, numa rua chamada Cunning.
É uma loucura isso, imaginar que um autor famoso como ele era na geração dele, tinha o endereço da casa dele nas primeiras páginas do livro dele.
Naquela época eu já achei aquilo louco, imagina hoje em dia algo assim.
E eu criei uma tradição, eu fui lá à rua dele, uma vez eu estava no Rio de Janeiro, para quem não sabe, eu sou do Rio de Janeiro, morei muito pouco, praticamente saí do Rio de Janeiro quando eu era criança, mas por conta de familiares eu fui várias vezes ao Rio de Janeiro, tinha essa certa frequência de ir ao Rio de Janeiro, e eu uma vez fui até a rua, eu sabia o endereço dele, estava no livro, mandei cartas, ele respondeu, ele era vivo ainda, e eu fiquei com aquele sentimento de toco a campainha ou não, mas eu obviamente não toquei a campainha, não chamei, não fui à portaria do prédio, não fazia sentido, seria uma enorme falta de respeito, mesmo nós já tendo nos correspondido.
Eu não fui convidado, mas eu não diria que eu me arrependo, porque eu não faria, mesmo se eu voltasse no tempo eu não faria de novo, mas algum tempo depois ele faleceu, e foi, ele já era bem mais velho, mas foi triste, foi uma coisa que eu pensei, poxa, eu tive uma oportunidade de falar com ele, estava ali embaixo do prédio dele, nem sei se ele estava em casa, os porteiros falavam que ele ficava perambulando ali por baixo, eu conversei com algumas pessoas que estavam andando na rua, falei, é aqui nessa rua que o Fernando Sabino mora, ele falou, é aqui mesmo, de vez em quando ele aparece aí, está ali, ali e tal