A Faca de Dois Gumes

2026-05-16 13:01

Essa minha volta aos livros de Sabino está se revelando uma viagem às profundezas da minha memória. O livro A Faca de Dois Gumes é composto por três histórias policiais e é aqui que começa minha desorientação.

A Faca de Dois Gumes

A última história, O Outro Gume da Faca, é a que mais gosto e, provavelmente por isso, eu me lembrava de todos os acontecimentos. Não dos detalhes, é claro, mas a história sempre esteve viva na minha memória durante todos esses anos.

O que causou confusão foi o título. A lembrança que tenho é de que ela tinha o mesmo nome do livro, ou seja, A Faca de Dois Gumes. Fiquei tão desorientado com isso que passei um bom tempo pesquisando se a história mudou de nome em edições posteriores. Não encontrei nenhuma evidência de que isso tenha acontecido. O mais provável é que eu tenha criado uma falsa memória.

Outra confusão que fiz está relacionada a como ele assistiu ao jogo. A falsa memória que tenho é a de que ele usou um videocassete para gravar a partida. Na verdade, ele usou um rádio. Mas, à medida que ia relendo, essa falsa memória se misturava à lembrança — real, neste caso — do delegado dizendo que só quem assistiu ao jogo poderia descrever o episódio do gol anulado com tanta precisão.

Enfim, algo que não mudou foi que, dentre as três, essa continua a ser a minha predileta.

Martini Seco

Já a história Martini Seco revelou algo que eu não tinha como perceber naquela época. A passagem abaixo (página 141), sobre o tabuleiro de damas, anos depois seria o foco de um livro inteiro:

— Branco com quadrados — respondeu o outro prontamente.
— Errou.
— Preto com quadrados brancos, então.
— Tornou a errar. É de outra cor, com quadrados pretos e brancos.
Serpa riu, depois espreguiçou-se.

Curioso como tudo já estava na cabeça dele. A Faca de Dois Gumes é de 1985 e O Tabuleiro de Damas é de 1989. Será que ele ia escrevendo as coisas ao mesmo tempo? Será que falava dessas coisas com os amigos?

O Bom Ladrão

A história que abre o livro, O Bom Ladrão, é a de que eu menos me lembrava. Mas já na página 13 ela também contém uma referência a um futuro livro:

ULTIMAMENTE ando de novo intrigado com o enigma de Capitu. Teria ela traído mesmo o marido, ou tudo não passou de imaginação dele, como narrador? Reli mais uma vez o romance e não cheguei a nenhuma conclusão. Um mistério que o autor deixou para a posteridade.

E o assunto continua na página 14:

Tenho certa predileção pelos romances policiais, mas me interesso também por assuntos literários. Às vezes chego mesmo a pensar em dedicar a algum deles um estudo especial. Como ao enigma de Capitu, por exemplo.

E não parou por aí. Na página 44 há outra referência a Dom Casmurro, junto com outro livro que ele menciona com frequência: Madame Bovary.

Por capricho, procurei nas prateleiras um exemplar de O Primo Basílio. Não encontrei. Por que não Madame Bovary, logo de uma vez? Acabei me decidindo pela prata da casa: uma edição de luxo de Dom Casmurro.

Anos depois, em 1998, ele escreveu O Amor de Capitu, que, em minha opinião, é uma ideia genial. Ele inverteu o ponto de vista do famoso romance, mudando o narrador. Não direi mais nada além disso para não estragar a surpresa de quem ainda não leu. Se ficou curiosa(o), vá ler. Mas deixo aqui uma dica: vale a pena primeiro reler Dom Casmurro.