Microsoft vale mais e inova mais do que a Apple

Dentre os novos modelos com a marca Surface, está o Duo, um telefone com duas telas e que usa o sistema Android.

A existência do Duo seria algo completamente impensável há alguns anos. O responsável pela guinada nos rumos da empresa é o CEO Satya Nadella, que já declarou muitas vezes que o objetivo da Microsoft é vender a experiência de uso dos seus serviços, independente da plataforma.

A empresa chegou ao clube do Trilhão de Dólares um pouco depois da rival Apple. O curioso é que foram caminhos completamente diferente. Enquanto a Microsoft abraçava com muita força o plano de vender serviços como o Azure e Office 365, a Apple permanecia fiel ao modelo de venda de equipamentos com preços superiores ao da concorrência.

A relação de amor e ódio entre as duas é muito antiga. A Microsoft criou os primeiros programas para o Mac e anos depois foi processada pela Apple, que, por sua vez, foi salva da falência pela Microsoft. O mundo dá muitas voltas e hoje a Microsoft vale mais do que a Apple.

O curioso é que há alguns anos uma começou a se inspirar na outra. A Apple iniciou uma longa jornada em busca de migrar para um modelo baseado em serviços e a Microsoft, que já vinha neste modelo há algum tempo, passou a investir na criação e venda de equipamentos com a marca própria. Mas, apesar de inspiradas nos modelos de negócio uma da outra, os caminhos ainda me parecem distintos.

A Apple depende da venda de telefones e tablets próprios para manter e aumentar o mercado consumidor dos seus serviços. Afinal, poucos são os que têm versão compatível com os equipamentos da concorrência. Já a Microsoft não parece ter nenhum tipo de restrição. O novo Surface Duo é a maior prova disto. Além de ser um aparelho telefônico que usa o sistemam Android, apareceu nas imagens publicitárias mostrando em tela a caixa de busca do Google e o Google Maps.

É o mundo novo dos serviços garantindo receita mensal. Mas no caso da Apple, com o Arcade, Apple TV+, Apple Music etc. o público alvo é claramente o varejo. Já a Microsoft está de olho no mercado corporativo, especialmente com o Azure e Office 365. Ou seja, a compatibilidade com os mais variados equipamentos e sistemas garante que as assinaturas mensais continuarão a ser pagas.

Quando olho para os equipamentos criados pela Microsoft, vejo cada um deles como uma vitrine para inspirar os outros fabricantes. Aliás, é um modelo de negócios que também foi adotado pelo Google.

Mesmo levando em conta o fato de que o Windows ainda não conseguiu ser um sistema híbrido funcionando bem tanto usando teclado e mouse, quanto em modo tablet, o primeiro Surface serviu como inspiração para uma série de outros equipamentos lançados por parceiros da Microsoft. E anos depois, não há como negar a evolução que nos trouxe ao Duo e Neo.

Não se deixe enganar. O Neo, que a primeira vista é apenas um tablet com duas telas, me parece uma solução muito mais eficiente do que o MacBook Pro com Touch Bar. Olhe com atenção o vídeo publicitário e verá que o teclado físico pode ou não ser usado e quando colocado sobre o vidro, pode deixar qualquer um dos dois lados expostos. Significa, por exemplo, que se você está usando um mouse, é possível tratar o topo da tela como uma “Touch Bar” maior e mais versátil que o sistema da Apple. Por outro lado, se você deseja ter e usar um trackpad, basta empurrar o teclado para frente. Parece banal, mas é genial.

É comum ligarmos inovação à equipamentos, mas o novo modelo de negócios da Microsoft voltado para serviços inova, e muito, nas várias decisões que a empresa vem tomando. Por exemplo, o uso diferente do vidro e um teclado físico no Neo. A coragem de optar pela divisão do Duo em duas telas de vidro no lugar de uma única tela do plástico como fez a Samsung e ainda usar o Android em lugar do Windows. São mostras de que a empresa não tem medo de experimentar, desde que seja para fortalecer a experiência do usuário final, que terá os serviços da Microsoft a sua disposição em toda parte.

É evidente que a Microsoft tem como objetivo final distribuir lucro para os acionistas, mas o caminho escolhido me parece claramente inspirado em uma Apple do passado. Ao tornar a experiência dos seus usuários a melhor possível, a Microsoft consequentemente vende mais e, no final, agradará seus acionistas. Já a Apple parece uma empresa muito mais focada no lucro do que na experiência dos usuários. Não podemos sequer sincronizar o Apple Watch com um iPad. É preciso comprar também um iPhone.