CEO da Evernote explica o processo de reformulação do serviço

Ian Small é o CEO mais transparente, autêntico e pragmático que a Evernote já teve.

Venho interagindo com a Evernote (empresa) de forma mais próxima há muitos anos. Meu primeiro contato oficial foi para pedir autorização para usar o termo “Evernote” no título do meu livro Organizando a vida com o Evernote, lançado em 2012.

Mais tarde, quando me tornei embaixador, passei a ser convidado para as conferencias internacionais e em 2014 fui também um dos palestrantes.

No mesmo ano me formei na primeira turma de Consultores Certificados e em 2019 iniciei a atividade de Líder de Comunidade e passei a ter reuniões mensais com a empresa.

No mesmo ano me formei na primeira turma de Consultores Certificados e em 2019 iniciei a atividade de Líder de Comunidade e passei a ter reuniões mensais com a empresa.

Na prática tudo isso significa que acabo sabendo de algumas coisas com um pouco mais de antecedência, mas nem sempre posso compartilhar. Porém, depois de anos e anos de convivência enxergo muito bem as entrelinhas de tudo que é dito ou publicado a respeito da empresa e, obviamente, posso falar sobre o que penso.

Hoje, o plano é compartilhar minha opinião a respeito da entrevista recente dada pelo atual CEO, na qual ele compartilha sua visão para a versão web em beta e o futuro dos demais aplicativos.

Por que a Evernote está publicando vídeos de bastidores?

Segundo Ian Small, a ideia foi sugerida por um usuário e eles resolveram experimentar e escolheram um conjunto de diferentes temas com o objetivo de identificar o que agradaria mais a comunidade. O resultado, segundo o CEO, tem sido muito positivo e em minha humilde opinião, eles acertaram na mosca.

Vladimir Campos e Phil Libin na conferência de 2012

Vladimir Campos e Phil Libin na conferência de 2012

Há tempos a Evernote publica vídeos publicitários bem produzidos e com belas imagens, mas na prática penso que eles não têm sido úteis para nenhum tipo de público. Como não há tutoriais ou explicações detalhadas, os novos usuários não conseguem aprender nada e no outro extremo, o grupo de antigos fãs nunca enxergava algo de útil nessas belas produções.

Penso que os vídeos de agora acertam porque são focados na comunidade de usuários mais apaixonados. É mais ou menos o que era o primeiro podcast da empresa na época do Phil Libin: algo descontraído e com algumas explicações dos bastidores. Em outras palavras, uma boa visão do que estava por vir. A diferença é que Libin era muito empolgado e eventualmente fazia algumas promessas difíceis ou impossíveis de concretizar.

A energia dele em relação a empresa era enorme. A primeira vez que encontrei Phil Libin fiz um pedido. Eu queria ter a possibilidade de capturar e usar links de notas nas versões móveis do aplicativo. Ele ouviu com atenção o que eu dizia e depois me pediu para explicar porque aquilo seria importante. Finalmente abriu o App Evernote no telefone e anotou meu pedido. Algum tempo depois a função estava lá.

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Ian Small, por outro lado, é o CEO mais transparente, autêntico e pragmático que a Evernote já teve. Ele não tem nenhuma vergonha de assumir os problemas que o serviço tem e quando compartilha algo sobre o futuro da empresa sempre deixa claro se aquilo é uma ideia, projeto ou experimentação e nos dirá se há ou não uma data para conclusão.

Por que a versão web está recebendo tanta atenção?

Como estou usando a versão beta do Evernote web percebo claramente que a maior parte das novidades e mudanças está acontecendo por lá e é algo que me deixa muito contente porque desde a mudança radical que aconteceu em 2014, quando ela perdeu boa parte dos recursos, a versão web vem sendo deixada de lado. Enfim, não vamos chorar águas passadas.

Segundo Ian ela é a versão perfeita para os testes porque é fácil de experimentar novidade e corrigir o que tem que ser corrigido sem muita dificuldade.

Usar um App para testes beta não é nada eficiente porque em havendo um problema, uma nova versão terá que ser enviada para as lojas, para que todos os usuários possam instalar e só depois disso o problema aparecerá corrigido. E se a necessidade for apenas testar algo, o problema é o mesmo. Por outro lado, ao usar a versão web para testes, é possível corrigir erros ou mudar qualquer coisa em pouco tempo e sem traumas para o usuário.

E o Firefox?

Durante a conversa a respeito da versão web ele aproveitou para explicar o problema com o navegador Firefox. Segundo Ian, cada navegador lê de forma diferente a linguagem javascript que é utilizada no Evernote. Para solucionar o problema existiam duas opções: adaptar a versão atual ou reescrever todo o código para que o Evernote se tornasse compatível com os dois navegadores: Chrome e Firefox . Eles optaram pela segunda opção, mas ele não se compromete com uma data apesar de acreditar que o problema será resolvido em breve.

Pragmático e Transparente

Quando assumiu o cargo de CEO, Ian publicou um artigo no blog da empresa enumerando uma série de problemas que precisavam ser resolvidos. Ele citou inúmeros defeitos antigos e, em minha opinião, foi a primeira prova de transparência. Não me lembro de Phill Libin ou Chris O’Neill descrevendo tão detalhadamente os problemas que precisavam de atenção. Eles falavam sobre grandes temas.

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Ian fala em detalhes sobre os problemas que estão na frente do usuário todos os dias e o que está sendo feito para serem resolvidos. Além disso, ele raramente se compromete com datas e, até o momento, não fez nenhuma promessa grandiosa. Ao contrário, tem sempre os pés no chão e o trabalho mostrado em todos os vídeos de bastidores está em linha com o que foi prometido.

Próximos Vídeos

Os primeiros vídeos foram experimentais para entender o que a audiência mais gostou. Segundo ele, os mais técnicos são os com menos pessoas assistindo, mas é um púbico muito específico que deseja ainda mais detalhes a respeito do que está por debaixo do capô.

O vídeo mais popular é o que mostra detalhes do novo editor de notas, tema que também já ganhou vídeo lá no meu Canal e que provavelmente ganhará mais um vídeo no Canal da Evernote. Mas já existem diversos outros tipos de vídeos planejados e sendo gravados, como um específico sobre etiquetas, que, segundo Ian funcionam de forma terrível porque há muita diferença na implantação e uso nas diversas plataformas.

O Futuro

O que temos visto até o momento é um trabalho de padronização. O que está sendo feito no beta da versão web será levado para o App no Mac e Windows e os aplicativos para Android e iOS terão interações mais parecidas. Por exemplo, a criação de uma nota é muito diferente nas duas versões móveis e um vídeo recente mostrou o que está sendo feito para unificar as experiências. No caso das etiquetas, estou esperando por uma ação semelhante. Enfim, fique atento ao que está sendo publicado no Canal da Evernote e no meu Canal porque há muito sendo feito em todas as versões do aplicativo.

 

Fim da Evernote? Que confusão é essa?

Minha relação com a Evernote começou em 2012, quando me tornei um dos embaixadores da empresa e se tornou ainda mais próxima em 2014, quando me formei na primeira turma de Consultores Certificados. Significa que tenho conhecimento de algumas coisas que a maioria do público não sabe. As informações que recebo a respeito de novos produtos são obviamente confidenciais, mas para que essas informações cheguem a mim, ocorrem encontros periódicos com a empresa.

Além de explicar novos serviços e pedir feedbacks, eventualmente um convidado de uma determinada área da empresa compartilha conosco suas experiências e é durante essas conversas que sinto o clima da empresa que comentei no vídeo a respeito da nova marca.

Quando leio artigos como os que saíram recentemente no Brasil a respeito do fim da Evernote, fico profundamente irritado. Todos os links que recebi da comunidade que me acompanha eram sensacionalistas e irresponsáveis. Infelizmente é uma característica de um bom número de sites que publicam notícias a respeito de tecnologia no Brasil. Não acompanho nenhum deles porque uma boa parte simplesmente traduz o trabalho alheio. A propósito, muitos deles precisam urgentemente aprender ética e voltar para a escolinha de inglês.

Ao traduzir um artigo dos outros é preciso no mínimo citar a fonte e, ao modificar o texto é importante deixar claro que aquilo é uma opinião e não uma tradução. Um dos sites simplesmente traduziu "fonte anônima" como "especialistas". É de uma irresponsabilidade sem tamanho. Portanto, se você fala inglês ou está estudando, minha primeira recomendação é que você leia os artigos no original.

O artigo que gerou toda confusão no caso da Evernote foi publicado pelo The Verge nos EUA. É um único artigo que foi citado por outros sites de noticia nos EUA e gerou as traduções no Brasil. Este único artigo está centrado em 3 pontos:

  1. Executivos deixando a empresa. Isso foi confirmado pela Evernote.

  2. Preços mais baixos para os pacotes da empresa. Essa informação é pública.

  3. A tal espiral de morte. Fonte anônima!

PREÇO

Vamos começar pelo preço. O artigo original aponta corretamente que é uma promoção, mas essa informação foi excluída das péssimas traduções que andei lendo. Vou repetir para que fique bem claro. É uma promoção que vale por um ano. E é algo que sempre aconteceu. Perdi a conta de quantas vezes a empresa fez acordos e promoções que em alguns casos davam um ano inteiro de Premium grátis. É tão comum que muitos ficam perguntando por isso o tempo todo no nosso grupo de discussão.

Além de ser algo corriqueiro, acredito que estejam também testando o mercado. Atualmente a competição é muito maior e alguns outros serviços são bem mais baratos. E há também o caso do Office 365. Quem paga pelo serviço recebe mais armazenamento também no OneNote. Enfim, redução de preços é uma política comum nos EUA porque, diferente do que acontece no Brasil, por lá a competição é muito forte.

EXECUTIVOS

Quando uma nova empresa surge, algumas coisas vão acontecendo sem muito planejamento. Gerentes, funcionários, desenvolvedores etc. são muitas vezes amigos ou conhecidos. No começo o próprio Phil Libin, antigo CEO, respondia mensagens que chegavam via suporte. Em outras palavras, é um pequeno caos que vai se acumulando ao longo dos anos.

Com a chegada do novo CEO há três anos, começou uma grande reestruturação na empresa e no aplicativo e é muito natural que quem não concorda com as mudanças queira deixar a empresa. Uma boa parte das pessoas que eu conhecia na empresa saiu durante esses três anos. São pessoas queridas e que estavam lá desde o início, mas que pensam diferente do que está em curso. E o mais importante, os substitutos são igualmente competentes.

O problema é que quanto mais alto é o cargo, mais difícil é o processo de procurar um novo emprego. Muitas vezes contrata-se uma empresa para tratar disso sigilosamente e é um processo longo simplesmente porque existem muito menos vagas como aquela no mercado. É isso que acredito que está acontecendo com os executivos e possivelmente vai continuar acontecendo por mais algum tempo.

ESPIRAL DA MORTE

Toda empresa está constantemente numa espiral da morte. Especialmente no segmento de tecnologia. O iPhone em poucos anos destronou 2 gigantes, a RIM (Blackberry) e a Nokia. A Tesla até outro dia valia mais do que as gigantes automobilísticas. A Amazon fez evaporar um incontável número de livrarias. O Google fez sumir do mapa o onipresente Yahoo!

Pode ser que amanhã ou depois a Evernote desapareça. Pode ser que não. Honestamente não sei e não me incomodo com isso. É algo que me deixaria muito triste, mas definitivamente não é algo que tira meu sono. O fato é que é uma enorme perda de tempo ficar pensando nisso.

A empresa tem uma política muito clara de exportação de dados. Se hoje existe uma forma de exportar seu conteúdo para o OneNote não é por mérito da Microsoft, como cheguei a ler em alguns artigos publicados no Brasil. Isso é mérito da Evernote. É a ética da empresa! Se você usa o Notas da Apple, por exemplo, não conseguirá tirar seu conteúdo de lá com a mesma facilidade. Aliás, vai ser bem difícil.

Por um momento, vamos pensar no pior. A Evernote acabou! Você acha mesmo que uma empresa que tem 225 milhões de usuários vai mesmo acabar da noite para o dia sem uma oferta de compra? Para que você tenha uma perspectiva do que 225 milhões significa, pense nos seus amigos do Facebook. Estatisticamente falando é como se 1 em cada 5 deles estivesse usando o EvernoteÉ muita gente!

Outro ponto do artigo original que foi traduzido é a estagnação do número de assinantes. Ora, se o Facebook que é uma central de fofocas gratuita e viciante não consegue aumentar a base e tem preocupado os acionistas, imagine um aplicativo para organização e produtividade. Nada mais natural.

O segredo é inovar ou diversificar e é por isso que a Evernote tem investido no Evernote Business. Vai dar certo? Não sei. Mas o mercado é assim. A vida é assim. Não há como ter certeza. As coisas mudam o tempo todo.

INOVAÇÃO

Vamos começar pelos concorrentes. O último grande lote de inovações do OneNote aconteceu há alguns anos e foi basicamente uma cópia de todas as funcionalidades do Evernote que existiam naquela época. E o OneNote pertence a uma empresa que nada em dinheiro. O Bear, que só existe para o eco-sistema Apple, e outros são também cópias do Evernote com preços melhores. Onde está a inovação? Isso tem outro nome: chama-se concorrência. E em países com economia aberta como nos EUA, o que a concorrência faz? Derruba preços e gera disrupção. Quem se beneficia? Nós, os consumidores.

Não vejo nenhuma outra empresa concorrente inovando de verdade. A Evernote como todas as suas concorrentes têm mudado aos poucos. Até a Apple é hoje considerada por muitos como uma empresa que só lança produtos levemente aprimorados. Estive essa semana na conferência da Atlassian (dona do Trello), que é uma empresa enorme e o que foi lançado? Nada de mais.

RECAPITULANDO

  1. Por favor, pare de dar tanto crédito para sites que tem como modelo de negócios a tradução de noticias. Se você fala inglês, leia no original. Se não fala, aprenda. Inglês é fundamental.

  2. Os preços em economias abertas tendem a cair e isso é bom para o consumidor.

  3. Executivos vem e vão de acordo com a política da empresa.

  4. Inovação virá quando o mercado pressionar o suficiente.

E lembre-se suas notas não estão aprisionadas. Diferente de muitas empresas, um dos princípios da Evernote é a sua liberdade de sair a qualquer momento e levar seu conteúdo com você.

 

Por que a Evernote está descontinuando tantos serviços?

Por favor, não me entenda mal, adoro o Skitch, mas é uma questão de estratégia. O novo CEO da Evernote já havia dito que a empresa pretendia, a partir daquele momento, trabalhar com foco no elemento principal do aplicativo, as Notas. Começaram descontinuando o Hello e o Food e agora chegou a vez de mais uma leva de serviços que partirão.

  1. O Clearly eu mesmo já havia descontinuado. O futuro dele era tão evidente para mim, que o excluí da ultima atualização do meu livro. Realmente não há sentido algum em manter dois aplicativos que fazem praticamente a mesma coisa. O Web Clipper foi priorizado e vem evoluindo muito;

  2. O Evernote para Pebble eu nunca usei. Adoro meu Pebble, adoro o Evernote, mas não faz sentido ter apenas uma cópia da estrutura de Notas no pulso. Simplesmente não é eficiente. Tanto que a versão para Apple Watch tem funções bem específicas, que aliás, são muito parecidas com as do Powernoter;

  3. Já o Skitch é uma outra história. É um dos serviços Evernote que mais uso no Mac para melhorar a comunicação via imagens dos meus livros e interação com desenvolvedores, clientes etc. Na prática, tudo que preciso selecionar, marcar e mostrar para alguém é feito via Skitch. Mas descontinuar o aplicativo não significa que ele morreu! A propósito, a versão para Mac continuará a existir.

Logo original do Skitch antes de ser comprado pela Evernote.

Logo original do Skitch antes de ser comprado pela Evernote.

O Skitch foi comprado e aos poucos incorporado ao Evernote. Hoje suas funções estão em toda parte. Dentro de cada Nota, lá no topo, existe uma letra “a” (Mac e Windows). Clique e, dependendo do seu tipo de conta, poderá marcar imagens e PDFs. O Web Clipper também tem o Skitch embutido. Você pode recortar partes de sites, marcar o que quiser e salvar no seu Evernote ou compartilhar com alguém via link público ou Work Chat.

Foco é algo muito difícil e, ao mesmo tempo, extremamente importante. Quando a Apple estava quase falindo, foi o foco em um reduzido conjunto de produtos que ajudou Jobs a reergueu a empresa que é hoje uma das maiores do mundo. A Microsoft tem seguido o mesmo caminho. Comprou aplicativos, descontinuou alguns, adaptou outros e tudo em nome de uma nova estratégia que foi definida para a empresa. E perder o foco ao longo da jornada é relativamente comum. Nicholas Carlson, fala muito sobre isso no livro Marissa Mayer And The Fight To Save Yahoo. O lado positivo é que é possível reencontrar o equilíbrio e voltar à rota planejada.