Fim da Evernote? Que confusão é essa?

Minha relação com a Evernote começou em 2012, quando me tornei um dos embaixadores da empresa e se tornou ainda mais próxima em 2014, quando me formei na primeira turma de Consultores Certificados. Significa que tenho conhecimento de algumas coisas que a maioria do público não sabe. As informações que recebo a respeito de novos produtos são obviamente confidenciais, mas para que essas informações cheguem a mim, ocorrem encontros periódicos com a empresa.

Além de explicar novos serviços e pedir feedbacks, eventualmente um convidado de uma determinada área da empresa compartilha conosco suas experiências e é durante essas conversas que sinto o clima da empresa que comentei no vídeo a respeito da nova marca.

Quando leio artigos como os que saíram recentemente no Brasil a respeito do fim da Evernote, fico profundamente irritado. Todos os links que recebi da comunidade que me acompanha eram sensacionalistas e irresponsáveis. Infelizmente é uma característica de um bom número de sites que publicam notícias a respeito de tecnologia no Brasil. Não acompanho nenhum deles porque uma boa parte simplesmente traduz o trabalho alheio. A propósito, muitos deles precisam urgentemente aprender ética e voltar para a escolinha de inglês.

Ao traduzir um artigo dos outros é preciso no mínimo citar a fonte e, ao modificar o texto é importante deixar claro que aquilo é uma opinião e não uma tradução. Um dos sites simplesmente traduziu "fonte anônima" como "especialistas". É de uma irresponsabilidade sem tamanho. Portanto, se você fala inglês ou está estudando, minha primeira recomendação é que você leia os artigos no original.

O artigo que gerou toda confusão no caso da Evernote foi publicado pelo The Verge nos EUA. É um único artigo que foi citado por outros sites de noticia nos EUA e gerou as traduções no Brasil. Este único artigo está centrado em 3 pontos:

  1. Executivos deixando a empresa. Isso foi confirmado pela Evernote.

  2. Preços mais baixos para os pacotes da empresa. Essa informação é pública.

  3. A tal espiral de morte. Fonte anônima!

PREÇO

Vamos começar pelo preço. O artigo original aponta corretamente que é uma promoção, mas essa informação foi excluída das péssimas traduções que andei lendo. Vou repetir para que fique bem claro. É uma promoção que vale por um ano. E é algo que sempre aconteceu. Perdi a conta de quantas vezes a empresa fez acordos e promoções que em alguns casos davam um ano inteiro de Premium grátis. É tão comum que muitos ficam perguntando por isso o tempo todo no nosso grupo de discussão.

Além de ser algo corriqueiro, acredito que estejam também testando o mercado. Atualmente a competição é muito maior e alguns outros serviços são bem mais baratos. E há também o caso do Office 365. Quem paga pelo serviço recebe mais armazenamento também no OneNote. Enfim, redução de preços é uma política comum nos EUA porque, diferente do que acontece no Brasil, por lá a competição é muito forte.

EXECUTIVOS

Quando uma nova empresa surge, algumas coisas vão acontecendo sem muito planejamento. Gerentes, funcionários, desenvolvedores etc. são muitas vezes amigos ou conhecidos. No começo o próprio Phil Libin, antigo CEO, respondia mensagens que chegavam via suporte. Em outras palavras, é um pequeno caos que vai se acumulando ao longo dos anos.

Com a chegada do novo CEO há três anos, começou uma grande reestruturação na empresa e no aplicativo e é muito natural que quem não concorda com as mudanças queira deixar a empresa. Uma boa parte das pessoas que eu conhecia na empresa saiu durante esses três anos. São pessoas queridas e que estavam lá desde o início, mas que pensam diferente do que está em curso. E o mais importante, os substitutos são igualmente competentes.

O problema é que quanto mais alto é o cargo, mais difícil é o processo de procurar um novo emprego. Muitas vezes contrata-se uma empresa para tratar disso sigilosamente e é um processo longo simplesmente porque existem muito menos vagas como aquela no mercado. É isso que acredito que está acontecendo com os executivos e possivelmente vai continuar acontecendo por mais algum tempo.

ESPIRAL DA MORTE

Toda empresa está constantemente numa espiral da morte. Especialmente no segmento de tecnologia. O iPhone em poucos anos destronou 2 gigantes, a RIM (Blackberry) e a Nokia. A Tesla até outro dia valia mais do que as gigantes automobilísticas. A Amazon fez evaporar um incontável número de livrarias. O Google fez sumir do mapa o onipresente Yahoo!

Pode ser que amanhã ou depois a Evernote desapareça. Pode ser que não. Honestamente não sei e não me incomodo com isso. É algo que me deixaria muito triste, mas definitivamente não é algo que tira meu sono. O fato é que é uma enorme perda de tempo ficar pensando nisso.

A empresa tem uma política muito clara de exportação de dados. Se hoje existe uma forma de exportar seu conteúdo para o OneNote não é por mérito da Microsoft, como cheguei a ler em alguns artigos publicados no Brasil. Isso é mérito da Evernote. É a ética da empresa! Se você usa o Notas da Apple, por exemplo, não conseguirá tirar seu conteúdo de lá com a mesma facilidade. Aliás, vai ser bem difícil.

Por um momento, vamos pensar no pior. A Evernote acabou! Você acha mesmo que uma empresa que tem 225 milhões de usuários vai mesmo acabar da noite para o dia sem uma oferta de compra? Para que você tenha uma perspectiva do que 225 milhões significa, pense nos seus amigos do Facebook. Estatisticamente falando é como se 1 em cada 5 deles estivesse usando o EvernoteÉ muita gente!

Outro ponto do artigo original que foi traduzido é a estagnação do número de assinantes. Ora, se o Facebook que é uma central de fofocas gratuita e viciante não consegue aumentar a base e tem preocupado os acionistas, imagine um aplicativo para organização e produtividade. Nada mais natural.

O segredo é inovar ou diversificar e é por isso que a Evernote tem investido no Evernote Business. Vai dar certo? Não sei. Mas o mercado é assim. A vida é assim. Não há como ter certeza. As coisas mudam o tempo todo.

INOVAÇÃO

Vamos começar pelos concorrentes. O último grande lote de inovações do OneNote aconteceu há alguns anos e foi basicamente uma cópia de todas as funcionalidades do Evernote que existiam naquela época. E o OneNote pertence a uma empresa que nada em dinheiro. O Bear, que só existe para o eco-sistema Apple, e outros são também cópias do Evernote com preços melhores. Onde está a inovação? Isso tem outro nome: chama-se concorrência. E em países com economia aberta como nos EUA, o que a concorrência faz? Derruba preços e gera disrupção. Quem se beneficia? Nós, os consumidores.

Não vejo nenhuma outra empresa concorrente inovando de verdade. A Evernote como todas as suas concorrentes têm mudado aos poucos. Até a Apple é hoje considerada por muitos como uma empresa que só lança produtos levemente aprimorados. Estive essa semana na conferência da Atlassian (dona do Trello), que é uma empresa enorme e o que foi lançado? Nada de mais.

RECAPITULANDO

  1. Por favor, pare de dar tanto crédito para sites que tem como modelo de negócios a tradução de noticias. Se você fala inglês, leia no original. Se não fala, aprenda. Inglês é fundamental.

  2. Os preços em economias abertas tendem a cair e isso é bom para o consumidor.

  3. Executivos vem e vão de acordo com a política da empresa.

  4. Inovação virá quando o mercado pressionar o suficiente.

E lembre-se suas notas não estão aprisionadas. Diferente de muitas empresas, um dos princípios da Evernote é a sua liberdade de sair a qualquer momento e levar seu conteúdo com você.