Respire! Escreva devagar…

Há algum tempo venho propagando nos meus artigos, podcasts etc. a ideia do menos e do minimalismo no meu modo de ver e agir. Essa atitude tem sim mudado minha vida e me feito um pouco mais feliz a cada dia. Porém, hoje me dei conta de que minimalismo e a não-agitação na vida moderna não têm exatamente uma relação direta. Em outras palavras, ser minimalista não me fará necessariamente desacelerar.

Há alguns dias venho reclamando com os amigos e familiares que tenho trocado letras e até palavras inteiras ao escrever e ler. Coisas estranhas vem acontecendo. Às vezes leio frases inteiras em uma língua e penso que li em outra. Outras vezes encontro uma palavra em outra língua num texto apesar de nitidamente ter pensando na língua original do texto. Isso acontece normalmente com inglês/português e português/inglês, mas recentemente ando misturando inglês no espanhol também.

Convivo no trabalho e na vida pessoal com pessoas que falam diferentes línguas, mas não pode ser só isso! Não é algo novo na minha vida essa convivência!

Estou ficando louco?

Creio que não, mas de fato essas trocas vem se intensificando e consequentemente minhas reclamações para os mais próximos aumentam na mesma proporção.

Hoje escrevi um e-mail com dois ou três parágrafos para o amigo Alexandre Costa — um dos que vem ouvindo minhas constantes reclamações — e sem pestanejar ele me devolveu o meu pequeno texto com alguns erros de grafia grifados. Não de línguas trocadas. Não de erros de português… Erros de grafia mesmo! Pura falta de atenção!

Poderia ter culpado o corretor automático do iPhone e temos por hábito sempre fazer isso, mas baixei a cabeça e assimilei a bronca dele que veio numa frase típica do Alexandre: "— Respira enquanto escreve, macho!". Quem ouve o iTech Hoje está, imagino, neste momento, pensando nele com toda sua delicadeza de Analista de Bagé do Ceará dizendo esta frase. Aqui, ao menos, passou imediatamente pela minha mente.

Notei que ele tinha toda razão enquanto estava respondendo o e-mail dele e já começando a culpar o corretor ortográfico do telefone. E não é que estou escrevendo mais rápido do que meus olhos conseguem ler? Provavelmente também mais rápido do que meu cérebro pode processar! Se é que isso é possível…

Enfim, desacelerei imediatamente e comecei a notar que é muito difícil escrever em uma velocidade que possa ser acompanhada pelos olhos. Nossa, como é difícil! E está acontecendo neste exato momento enquanto escrevo este texto.

Então, a dica de hoje é: — Respira enquanto escreve, macho!

A gaiola eletrônica

Aconteceu num dia comum, daqueles em que deixamos uma série de coisas para resolver na hora do almoço. O shopping parecia a melhor opção. Poderia fazer tudo e ainda sobraria meia hora para almoçar. Estacionei na garagem, subi, resolvi tudo e ainda sobrou um bom tempo, que aproveitei num restaurante um pouco melhor.

Paguei a conta com o cartão de crédito, como havia feito com as outras despesas daquele dia, e saí para sacar algum no caixa eletrônico. Raramente ando com dinheiro em espécie, só precisava de R$ 3,00 para pagar o estacionamento.

Passei o cartão, selecionei R$10,00, digitei a senha e a pequena demora usual transformou–se em alguns minutos… Processando… Processando… Processando…

— Dirija–se a outro terminal...

Onde estava havia uns vinte terminais e me senti um idiota digital quando comecei a passar de um terminal para outro… e cada um deles gentilmente repetia… "Dirija–se a outro terminal". Quando dei por mim e percebi o ridículo da situação, já havia dado uma volta completa e estava de volta ao terminal onde tudo começou.

Estamos em Brasília, em um shopping no meio do nada. Eu de terno e gravata. Sem chances de sair e andar à procura de outro caixa eletrônico fora dali. Fácil, pensei. Vou a uma livraria ou outra loja do shopping, compro uma revista com meu cartão de crédito e peço um troco de três reais, três míseros reais! Lá pela quinta loja desisti da idéia. Porque o gerente que não estava lá e os juros que o cartão de crédito cobra de cada transação são terríveis, fiquei sabendo.

Era sair de uma loja e dar uma passadinha nos caixas eletrônicos torcendo para que tudo já estivesse restabelecido. Hilário para não dizer trágico. As pessoas entravam e saíam da agência digital se esbarrando na porta como formigas que perdem a trilha de feromônio. De longe dava para perceber que nada havia voltado ao normal.

Já tive a oportunidade de conhecer o centro de gerência de agências de alguns bancos e no painel sempre via índices fantásticos de agências em perfeitas condições de funcionamento. Lembro de uma visita em que me disseram que naquele momento havia quatro agências paradas em todo o Brasil. Só quatro? Fiquei impressionado com o grau de exigência. Apenas quatro agências paradas e eles ali naquela agitação toda tentando resolver o problema. Hoje eu estava em uma daquelas e não era nada agradável.

Continuei minha saga e minha próxima estratégia seria mendigar. Contei minha história no balcão de informações, na administração e um monte de outros lugares até chegar finalmente à guarita de pagamento do meu ticket. Soube que só ali poderia resolver meu problema. Meu plano? Explicar mais uma vez a situação e torcer pela caridade do caixa.

Em pé na fila e morrendo de vergonha do caos que iria arrumar me deparei com a salvação numa placa dentro da guarita. Senti–me o próprio Tom Hanks no filme O Terminal quando ele entendeu que poderia conseguir moedas devolvendo os carrinhos de malas.

A placa dizia: "Vinte reais de compras no supermercado dão direito a duas horas de estacionamento grátis". Finalmente! Corri para o supermercado e peguei algumas coisas. Faltavam poucos minutos para completar duas horas de permanência ali naquela gaiola digital. O caixa marcou R$ 32,20, paguei com o cartão de crédito e ganhei um ficha com direito a duas horas gratuitas de estacionamento. Foi o suficiente.

Liberdade afinal!

* * *

Esta não é uma história de ficção! Aconteceu realmente e acontece diversas vezes conosco em nosso dia–a–dia. Não damos atenção, pois raramente ficamos tão enclausurados. Sempre temos alternativas que nos livram de situações constrangedoras que a tecnologia nos propicia.

Acredito muito na tecnologia, mas é preciso cuidado com sua utilização e implicações, quando todas as informações e benefícios tecnológicos trafegam por uma única via. A própria Internet surgiu com essa finalidade anos atrás – descentralizar e manter a informação e a comunicação seguras em caso de uma guerra.

Nossa confiança na tecnologia aumentou muito nos últimos anos. Quantas pessoas entram em um shopping sem se preocupar se têm dinheiro na carteira para pagar o estacionamento? O caixa eletrônico está lá! Quantas vezes vamos a um restaurante ou estabelecimento e ficamos surpresos se não recebem cartão de crédito?

E os telefones celulares? Eles nos geram tanta confiança que muitas vezes sequer combinamos um plano B para um encontro ou reunião. E pior, marcamos compromissos com displicência, porque basta uma ligação se não encontramos o local marcado ou se chegamos antes ou depois do horário.

Por um lado isso é muito bom, significa que a tecnologia está realmente com índices de eficiência elevados. Por outro lado, estamos mais enclausurados e dependentes dela para tudo. Em pouco tempo mal chegaremos em casa de carro sem um GPS.

Por favor, não me entendam mal. Não proponho uma volta ao passado nem a migração em massa para uma ilha deserta. Toda noite conecto inúmeros aparelhos na tomada que precisam acordar recarregados no dia seguinte. Eles garantem o perfeito funcionamento do meu dia pessoal.

Assim fazemos e faremos cada vez mais, mas é preciso tomar cuidado com o mundo do futuro. A tecnologia, lembro bem, deve nos libertar e não nos aprisionar. Assim profetizaram Toffler, Naisbitt, Lévy e tantos outros.